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je n'ai vu personne
Helana Gurgel



12/02/2006 16:25
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Novo endereço. Estou abandonando aqui.

Assim Devera


Helana Gurgel | comentários(0)



05/02/2006 01:43
Como comprar uma cartola.

Sempre gostei de mágica por um motivo bem simples: os conceitos de causa e conseqüência não existem quando se fala em ilusionismo.

Uma ofensa à lógica, é verdade, mas plenamente justificável, já que uma das coisas de que mais sinto falta dos meus tempos de criança era de como as coisas apareciam misteriosamente à minha frente, sem uma procedência discriminadamente pormenorizada.

Alimentos, roupas, calçados eram fartamente encontrados pelos cômodos da casa. E eu não me dava sequer o trabalho de saber como aquilo havia surgido ali - algo que fez com que me tornasse uma fã ardorosa da abiogênese em plena oitava série.

Mas, veja bem, coisas vindo do nada eliminam a dificultosa operação de obtê-las - o que, por sua vez, alivia a dolorosa imposição diária ao contato pessoal com determinados profissionais. Sim, prefiro me filiar ao Partido dos Prestidigitadores a ter de lidar com todos esses funcionários responsáveis pelas vendas (já não me bastassem os salões de beleza!).

A sociedade não respeita se você fizer um mau negócio. O atendente rirá pelas costas, porque você é um cliente bobo, que não sabe pechinchar. "Mas todos sabem que os vendedores podem dar até 25% de desconto na peça, é preciso ter lábia para conseguir dobrá-los, querida!". Ora bolas, não sou tola a ponto de acreditar no preço justo. Não discuto não por concordar com tudo, mas para não ser levada a contrariedades! Não chamo o gerente! Contento-me com módicos 5% de abatimento, se for para evitar uma barganha mediocre e extremamente enfadonha.

A internet veio em minha salvação. Livros, eletrônicos, materiais de pinturas, tudo pode ser encomendado com um clique, sem saliva, sem discurso ou argumentação. Bem-vindo à vida com toques de impessoalidade...



Helana Gurgel | comentários(1)



25/11/2005 13:24
Típico diário travestido

Neuróticas como eu não deveriam ter descrições publicadas em jornal. Desde ontem, quando vi a notinha da coluna, procuro desesperadamente em todos os posts esse quê-feminino mencionado pelo jornalista. As minhas crises literárias iam muito bem obrigado enquanto se restringiam somente à dificuldade em corresponder às minhas próprias expectativas. Justo eu que sempre achei que tinha uma escrita sem sexo. Hermafroditismo estilístico total. Muito bem, acho que já era hora mesmo de ir pro divã.

Mais explicações abaixo: Coluna Blog-se, Jornal O POVO

Je n'ai vu personne

O blog da Helana Gurgel é um típico diário feminino. Ela fala de seus aperreios por não ser uma "típica mulherzinha" e das suas frustrações literárias. De forma muito poética, envolve o leitor no seu universo lítero-feminino. E sempre se desculpa quando passa um tempo sem colocar novos posts. "Eu padecia de dois males: o da alta expectativa (não conseguia escrever coisas perfeitas, aliás nunca escrevi) e das mudanças que aconteciam na minha vida (não conseguia viver coisas perfeitas). E foi assim, aflita por estar rodeada de imperfeições (a começar por mim mesma), que eu cessei tudo - leitura e escrita".


Helana Gurgel | comentários(8)



07/07/2005 21:27
Quinzenalmente mulherzinha

Sou intimidada abertamente por colméias. Principalmente por se tratarem de verdadeiros templos femininos, nos quais abelhas executam diligentíssimas tarefas que eu não seria capaz de desempenhar. Não por inaptidão, mas por pura falta de traquejo social. Sou infinitamente tão desajustada com o mundo feminino, que o simples fato de deparar com a existência desse tipo de sociedade me causa terríveis imbróglios (adoro essa palavra, parece que já vem junto com ela um pedido por um sal de fruta).

Para mim, a versão humana dos apiários são definitivamente os salões de beleza. É um martírio ser obrigada a freqüentar esse tipo de lugar em que todas sabem exatamente como se portar, como serem imediatamente atendidas e como habilmente conversar amenidades entre uma lixadinha aqui, outra ali. Sou uma operária deslocada, totalmente dessincronizada com os inúmeros afazeres da fêmea vaidosa.

Amedronta-me também saber que serei posteriormente julgada como a cliente-cabeça-de-borboleta que não sabe a hora certa para trocar de mão e que ignora solenemente o que vem primeiro: a lixa ou a retirada das cutículas. A situação é tenebrosamente agravada com a presença da rainha, em geral uma cliente freqüentadora assídua, estilo dominatrix - cheia de pulso e altivez detectados imediatamente pelos comandados. A rainha se desloca tão desenvolta entre o enxame e é tão solicitamente atendida, que só me resta esperar resignada em meio a Caras e Marie Claires.

Pior do que ir ao salão é mudar de salão. Novas manicuras, depiladoras, cabeleireiras administrando procedimentos diversos - porque, muito embora elas tenham nomes parecidos, necessariamente pertencem a "escolas estéticas" diferentes. Existem as modernistas, as conservadoras e as alternativas, cada uma sugerindo uma modalidade diferente de unhas e cabelo. E eu, que nessas horas acabo reagindo da pior forma possível, ou seja, buscando agradar para suplantar a minha falta de tarimba, sorrio afirmativamente às várias opiniões ofertadas e ajo como a prima mais nova que deixa a prima mais velha besuntar os seus cabelos com substâncias desconhecidas, na hora de brincar de clínica de estética. Já tive uma franja porcamente amputada na infância numa dessas experiências.

Como podem ver, o comeal sempre me perseguiu, sempre me encurralou ante a minha falta de inserção no mundo das mulherzinhas...


Helana Gurgel | comentários(14)



04/07/2005 20:57
Padecimentos

O post sobre a neurose de Wittgenstein, escrito dia 15 de junho, parece que passou despercebido – e eu que o achava tão esclarecedor, tão explicitamente confessional, ainda que partindo da boca de outro! Pois bem, eu mesma comento:

Trata-se de um trecho das cartas de Bertrand Russel, de quem Wittgenstein foi aluno. O discípulo era tão exigente consigo mesmo que não se permitia erros ou pensamentos grosseiros. Mas, para o mestre, se o pequeno Witt não ousasse escrever qualquer coisa, ainda que fossem textos não diligentemente pensados e depurados, nunca realizaria nada, pois tudo na vida começa de uma maneira mais ou menos torta e vai se endireitando. Ou não.

A citação era, então, para explicar o meu sumiço de quase um ano (2004) sem posts novos no personne. Acontece que eu padecia de dois males: o da alta expectativa (não conseguia escrever coisas perfeitas, aliás nunca escrevi) e das mudanças que aconteciam na minha vida (não conseguia viver coisas perfeitas). E foi assim, aflita por estar rodeada de imperfeições (a começar por mim mesma), que eu cessei tudo - leitura e escrita.

O que mudou minha maneira de pensar foi uma conversa recente que tive com um amigo, na qual ele confessava que nunca poderia escrever nada porque não saberia falar interessantemente das coisas sem interesse.

Depois disso, as diretrizes do personne sofreram modificações. Antes, a ordem era falar de tudo, menos de mim (o que tornava o discurso muitas vezes empedernido e vazio). Agora, sem orientação rígida, os posts vão saindo de forma mais natural (exceto, às vezes, quando eu não resisto e volto a primar pela estética excessiva e sem graça). Enfim, perdoem as recaídas, sim?


Helana Gurgel | comentários(4)



04/07/2005 15:01
"Ei, pare de auricular o livro!"

Descobri que dog ear significa, em inglês, aquela dobrinha do canto das páginas dos livros, usada para marcar o ponto deixado na última leitura. Isso mudou totalmente a minha maneira de encarar esses vincos deixados por leitores desleixados. De fato, toda vez que vejo uma, não sinto mais repulsa, mas sim uma vontade irresistível de ir completando o desenho do cachorro na página (tenho compulsão por gestalt, o médico disse que foi coisa da infância mesmo, quando treinava caligrafia cobrindo linhas pontilhadas).

Mas o mais interessante da língua inglesa é que o termo também pode ser usado como verbo: "Hey man, stop dog earing my damn books!", retort the librarian. Tradução praticamente impossível para o português – ainda não encontrei nenhuma versão que consiga manter a integridade da metáfora, pois traduzida a expressão perderia todo esse ar so cutesy que emana.

Entretanto não estão livres da minha fúria quem usa clipe como marcador de página. Quer coisa pior do que um vinco naquele formato esdrúxulo (simples e funcional, mas feio!), sem o charme das dog ears (que não teriam esse charme todo se não tivessem sido nomeadas assim)? Sei que a Noruega inteira se orgulha do seu fabuloso araminho de catalogar papéis (existe um monumento em sua homenagem, em Oslo), mas sou contra pregas desnecessárias em bordas de livros.


Em tempo: Falando ainda sobre a utilidade desse acessório, um amigo, certa vez, usou clipes de papel para segurar a barra da calça (que ele não teve tempo de mandar cortar). Os amigos do colégio, vendo aquela barra dobrada de maneira tão inventiva perguntaram: “Quando é que você vai mandar encadernar o resto da sua calça?” :)



Helana Gurgel | comentários(6)



29/06/2005 15:24
Nárnia, em dezembro, 2005

A Disney está produzindo The Chronicles of Narnia, do C.S.Lewis, uma série de 7 volumes, cujo mais famoso livro é O Leão, a Feiticeira eo Guarda-roupa. O filme será lançado em dezembro deste ano. Vejam aqui os pequenos Peter, Edmund, Susan e a pequeniníssima Lucy! ;)

Não deixem de visitar também o site do filme, que está lindo e a animação inicial descreve em imagens o que era antes somente possível com o uso da imaginação: o momento em que se entra no guarda-roupa e encontra-se o... bem, só vai vendo mesmo ;) Só sei que é do jeitinho como eu imaginei quando estava lendo ;P

ps: quero só ver como a Lucy, minha personagem preferida, vai ficar! ;)


Helana Gurgel | comentários(5)



25/06/2005 20:28
sem palavras

"Se ela te fala assim, com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente.

.. Se ela fosse direta, você a rejeitaria."


Helana Gurgel | comentários(1)



25/06/2005 09:34
Risível

Um bilhete de claque é um passe dado ou vendido abaixo do preço, que reclama ao portador a obrigação de aplaudir incondicionalmente o espetáculo. Uma claque é, portanto, um grupo de applaudisseurs, um circo de pequenas focas amestradas dispostas a ovacionar a medriocridade sempre que ela se apresente.

Também são consideradas claques aquelas risadas fajutas gravadas e inseridas ao final de cada gag (piada) nos shows e seriados de humor. Esta, infelizmente, acabou sendo eleita uma das 100 piores idéias do mundo, em votação feita pela revista Times, em 1999. Isso porque o americano não tem a mania feia que os governos de esquerda têm de sempre ponderar sobre a função social das coisas - em cuba, provavelmente deve existir algum sindicato perdido dos aplaudistas (spa), reclamando por luvas de baixo impacto e melhores dentaduras.

O certo é que a gargalhada em playback, além de servir de muleta emocional para o protagonista de um eventual fracasso de público, é também uma verdadeira indolência para com as mentes mais preguiçosas. Já que não estar conectado ao timing da piada não quer dizer necessariamente que você não possa rir dela.


Helana Gurgel | comentários(3)



15/06/2005 22:53
O Beto, o Caminhão e os Livros

1992 era a época da lambada e do Sexolândia. E o apogeu, obviamente, eram as participações do Beto Barbosa no famoso quadro do Domingão do Faustão, cheio de perguntas picantes sobre o outro sexo. Ficava a família toda reunida, de olhinhos ansiosos, esperando para ver qual era a letra da plaquinha que o Beto apertava rente ao corpo com a resposta. E depois de saber se ele ia ou não pro rala-e-rola com uma mulher feia de rosto, mas boa de corpo (afinal, era só apagar a luz né, Fausto!), o grande-figura-humana-mais-do-que-nunca-este-monstro-sagrado-da-música-brasileira ia dar uma palhinha pra gente. Aí vinham saltitando aquelas dançarinas cabeludas, que balançavam os quadris e chicoteavam ceramidas no rosto dos parceiros.

Depois tinham as Olimpíadas, as Vídeo-cassetadas e, finalmente, o Caminhão do Faustão. Nessa hora, eu ficava desejando mais que tudo ser sorteada naquela pilha de cartas, muito embora não tenha nunca enviado um rótulo sequer. Eu achava que se pensasse forte, milhares de envelopes meus se materializariam com as respostas posteriormente auditadas por um cara importante de terno – que a gente sabia ser pessoa grave, idônea, só por se vestir, assim, tão serião. Eu ficava, então, confabulando o que ia fazer quando dissessem meu nome e ganhasse o prêmio:

- Eu só quero o caminhão, só o CAMINHÃO.

Essa primeira opção, baseada no filme Falcão (estrelado e co-escrito pelo Stallone), não se mostrava a mais viável, já que ainda ia levar muito tempo pra eu tirar a carteira tipo D (passados quase 13 anos, ainda não conduzo nem carro de passeio). A segunda opção, bem mais exeqüível, era vender tudo e utilizar o dinheiro para comprar algo que eu realmente desejasse muito. Entretanto, àquela tenra idade, não tinha eu tantos sonhos de consumo, exceto um: a banca do seu Jairo.

Desde pequena, a revistaria do Jairo era certamente a noção mais próxima que tinha de uma biblioteca. Morar no interior é de longe a pior maneira de inserção no meio literário: livro era, no máximo, o livro-texto da escola; livraria era banca de revistas, mal localizada nas bordas da praça central. Eu passava as tardes olhando para toda aquela pseudo-literatura disponível, mendigando com o olhar dois ou três exemplares e sempre recebendo um não da minha mãe – visto que aquilo era exagero, já tinha tantos em casa!

Foi pechinchando uma Mônica aqui, um Cascão acolá, que dei início ao meu vício pelas palavras. Já na capital, avancei nas edições da série vaga-lume e nos romances da dama Christie. Devorava os para-didáticos do colégio logo em janeiro (não só os meus, como o dos meus irmãos, que depois ficavam pedindo preguiçosamente resumos nas vésperas das fichas de leitura).

Os clássicos comecei a ler lá pelos 13 anos e, hoje em dia, para a minha vergonha, só leio assuntos relativos às minhas faculdades. É por isso que quando alguém chega com aquela pergunta descabida sobre o quê ando lendo ultimamente, respondo sempre que não leio nada – mesmo com quatro livros embaixo do braço. Para mim, leitura é sempre externa às nossas obrigações. É compromisso que a gente assume fora dos débitos escolares, ainda que esta seja uma dívida tão agradável de pagar.

ps: pra quem não percebeu, o título é homenagem disfarçada e plágio descarado do Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa. Queria, sim, que C.S. Lewis tivesse sido uma das minhas influências literárias da infância. Infelizmente, só vim a conhecer Nárnia em idade avançada, quando se perde aquela ótica bonita de criança



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